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Seção : Cinema - 30/01/2010 11:03
Luz, câmera, Nordeste!
Mostra de Tiradentes comprova o vigor da produção cinematográfica fora do eixo Rio-São Paulo. Filmes cearenses e pernambucanos resultaram do mutirão criativo de artistas nordestinos
Walter Sebastião - EM Cultura
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“Estamos desempregados. Então, temos tempo de fazer cinema”, brinca Guto Parente. O projeto do coletivo, conta ele, é “cinema de risco, de descoberta, de invenção”. Esses “filmes não formatados”, pessoais, dialogam com a história da sétima arte. A atuação do grupo comprova o crescimento da produção do Ceará. Os cearenses, aliás, marcaram presença na mostra de Tiradentes com oito curtas e três longas (um deles, Viajo porque preciso, volto porque te amo, é dirigido por Karim Aïnouz, homenageado desta edição do evento). Há uma nova cena no Ceará? Sim, ela existe, reúne grupo respeitável de realizadores e nasceu na Escola de Artes Visuais de Fortaleza, criada há três anos. “A escola proporciona às pessoas se encontrarem, estudar. As energias se somam, dando força à realização de projetos que, reunidos, ganham forma”, explica Luiz Pretti, ex-professor do espaço. O apoio das leis de incentivo é outro fator importante. “Mas são 10 filmes sem dinheiro para um com recursos. É a regra”, observa Guto Parente. Pretti diz que o conteúdo de um filme deve ser coerente com a maneira como ele é produzido, com suas opções formais e estéticas. “Isso traz verdade, além da sensação de honestidade consigo mesmo e de respeito pelo cinema arte, pelo qual somos apaixonados”, explica. Não se trata de opção pela pobreza franciscana, avisam os integrantes do Alumbramento, pois eles se habituaram a batalhar muito por recursos adequados para cada projeto. Os artistas cearenses apostam no fortalecimento de modos alternativos de exibição. Citam festivais de cinema, cineclubes, salas com programação diferenciada e internet. Inclusive, está nos planos da Alumbramento disponibilizar filmes gratuitamente. “Esses espaços permitem o debate sobre o que fazemos e ouvir a resposta do público”, conta Luiz Pretti. Mas avisa: o circuito precisa se expandir e se fortalecer, criando caminho de exibição também independente. PERNAMBUCO Entre os ótimos curtas exibidos em Tiradentes estão dois filmes do pernambucano Sérgio Oliveira, de 49 anos: Epox, sobre hippies que ainda hoje vendem artesanato pelas praças, e Faço de mim o que quero (parceria com Petrônio Lorena), sobre a cena brega do Recife. Um e outro, conta Oliveira, miram coisas que, apesar de serem muito visíveis, permanecem invisíveis. O diretor define sua obra (cinco curtas em sete anos) como livre pensar. Tema essencial posto pelos curtas-metragens, na opinião de Sérgio, é a possibilidade de exercitar grande liberdade estética. O pernambucano não só suspeita que esse formato é mais livre que o longa, como observa que a avaliação desses projetos, nos editais, “é mais solta”. O cinema pernambucano tem obtido bons resultados. Filmes realizados no estado ganharam espaço nos festivais internacionais de Cannes e de Veneza. O movimento começou nos anos 1990: O baile perfumado (1997), de Lírio Ferreira, representou um marco. A grande repercussão desse longa estimulou outros trabalhos. “Esse contexto foi construído na garra, conjunção feliz de realizadores de todas as idades”, informa Oliveira. Atualmente, os pernambucanos contam com programa local de incentivo que destina R$ 6 milhões por ano ao setor. O caminho seguido em Pernambuco passou pela parceria entre realizadores, mas sem formar cooperativas, e pelo fortalecimento de projetos e de estéticas individuais. De acordo com o cineasta, a variedade deu origem à qualidade dos filmes. Sérgio é o roteirista de Árido movie, filme de Lírio Ferreira e Murilo Salles lançado no Festival de Cinema de Veneza, em 2004. EM BH O filme Rumo, dos irmãos Pretti e do coletivo Alumbramento, será exibido terça-feira, às 21h, na programação do 2º Festival do Júri Popular/ Mostra Políticos Populares, no Cine Humberto Mauro (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Entrada franca. DE TIRADENTES PARA ROTERDÃ A falta que me faz, terceiro longa-metragem de Marília Rocha, estreia hoje em Tiradentes e segue para o Festival de Roterdã, na Holanda, onde será exibido na terça-feira. O documentário conta a história de adolescentes que trabalham na coleta de sempre-vivas, na região de Diamantina. Imersas em romantismo e nos dilemas da passagem para a vida adulta, essas garotas vivem no mundo dos homens – o garimpo. “Meu filme nem é, exatamente, sobre o amor, mas sobre as marcas, as ausências, as faltas que ele deixa. Isso pode ser percebido na fala, no corpo, na paisagem”, afirma a diretora. O documentário foi feito em dois anos. Surgiu no momento em que Marília estava às voltas com pesquisa na Cordilheira do Espinhaço sobre catadoras de flor, comuns na região. Quando ela conheceu as meninas, o projeto tomou outra direção. “O tema do amor, da amizade e das ausências ficou mais importante que o da coleta de sempre-vivas”, diz a cineasta. “Aboio, meu primeiro longa, era muito masculino. Falava de vaqueiros, de homens delicados que contam histórias e leem poemas. Agora, trabalho motivo completamente diferente: mulheres falando de homens – namorados, pais, irmãos. É filme bem feminino, mas não sobre fragilidade. Elas são fortes fisicamente, têm cotidiano pesado, cortam lenha. Também são fortes no sentido espiritual”, conclui. O repórter viajou a convite da organização do evento.
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