Para Sérgio Bianchi, é preciso mais seriedade e honestidade na utilização de recursos das leis de incentivo
Tiradentes – Sérgio Bianchi recusa rótulos e dispensa formalidades. Na estreia de Os inquilinos, seu novo longa apresentado na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, ele não discursou. Agradeceu ao público pela curiosidade em conhecer o trabalho e comemorou a oportunidade de compartilhar o momento com plateia numerosa, interessada na história de um casal com dois filhos, que mora na periferia de uma metrópole brasileira. Eles são surpreendidos pela presença incômoda de três jovens vizinhos, que acabam de se mudar para a casa de fundos de um antigo morador do bairro onde vivem há anos. Adaptação de conto de Vagner Geovani Ferrer, o filme está entre os mais ácidos da trajetória do diretor.
Bianchi concorda com a avaliação. “Gostei muito do conto, desde o primeiro contato com ele. Depois de retratar a situação daquela família, vi que o resultado foi de uma crueldade muito grande, talvez o mais venenoso. Da leitura do texto à conversão para o cinema, tudo vai se transformando”, diz. Por outro lado, o diretor afirma ser uma “chatice” ser sempre associado a adjetivos como maldito ou provocador e aponta como “grande bobagem” as avaliações da crítica de que Os inquilinos refletem sua maturidade. “Este filme foi mais um desafio que me deu muito prazer, pela possibilidade de lidar com atores, que é uma experiência que sempre me agrada, e também de brigar com a equipe, como é de praxe”.
Convicto, Sérgio Bianchi defende que as produções realizadas com recursos públicos, por meio das leis de incentivo, precisam beneficiar de alguma maneira à população. “Se não for assim, passamos ao estágio de esquizofrenia safada, que cria relações doentias, como a existência de empresas de captação que incham a indústria cinematográfica, com essa laborterapia regionalista, picaretagem e superfaturamento considerados naturais”, esbraveja o diretor. Ele critica a falta de atenção ao tema. “Enquanto se justificar as razões de cada um, haverá sempre alguém com sotaque bastante satisfeito, acompanhando de perto a situação”, provoca, fazendo referência à influência norte-americana e ao oportunismo de se copiar sucessos de bilheteria dos Estados Unidos para assegurar aceitação de mercado.
Bianchi também contesta fenômenos como a espetacularização da violência. Por este motivo, Os inquilinos provoca tanta inquietação. A horizontalidade com que trata circunstâncias completamente adversas coloca os espectadores no lugar dos protagonistas e cria ambiente arrebatador. Satisfeito com a reação de público heterogêneo e eclético de Tiradentes, arremata: “Não são só as classes alta e média que pensam; precisamos garantir o direito de todos terem acesso ao cinema nacional”.
Quem vai morrer? Valter não sabe. - Cena de Os inquilinos
Espaço democrático Coordenadora e idealizadora da Mostra de Cinema de Tiradentes, Raquel Hallak d’Angelo, da Universo Produção, avalia que este foi um ano de consolidação da plataforma de lançamento do cinema brasileiro independente. “Abrimos um espaço democrático para o espectador que não quer mais apenas assistir aos filmes, mas também produzir, realizar e ser protagonista”, afirma. Ela chama atenção para a diversidade dos trabalhos apresentados, pela decisão da curadoria de acolher todos os formatos possibilitados pelas novas mídias. “Quando a programação não é restritiva a essa realidade, o resultado é mais rico e democrático. As novas mídias favoreceram configuração original da produção audiovisual. Precisamos pensar o cinema sem criar generalizações”, argumenta.
Painel diversificado, a mostra discutiu o cinema contemporâneo e voltou a ser apontada como importante ponto de encontro para produtores, cineastas, artistas e público. Para a coordenadora, um festival não deve se propor apenas a fixar-se como espaço de exibição. Ela defende necessidade de gerar intercâmbio, provocar reflexões e propiciar ambiente adequado para formação e descoberta de novos talentos. Antes de começar a estruturar a 14ª edição da mostra, Raquel Hallak se prepara para a realização da Mostra de Cinema Ouro Preto, em junho, e da Mostra Cine BH, em outubro. “Temos em Minas Gerais um programa internacional que reúne três eventos diferenciados, mas completares”, afirma.