Divirta-se Notícia - Cine Marajá reabrirá as portas este ano, depois de reforma

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Seção : Cinema - 06/02/2010 12:02

Cine Marajá reabrirá as portas este ano, depois de reforma

Inaugurado em 1956, espaço insere Pedro Leopoldo na dura estatística: apenas 8,7% das cidades brasileiras têm salas de exibição

Janaína Cunha Melo - EM Cultura
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Fotos: Jair Amaral/EM/D.A Press
"Não quero saber de descansar. O cinema sempre foi a minha vida" - Edson Jorge, empresário

Pirata sangrento, com Burt Lancaster, foi o primeiro filme exibido no Cine Marajá, em Pedro Leopoldo. Inaugurado em 1956, por iniciativa do veterinário Edson Jorge, o cinema tinha capacidade para receber 890 aficionados pelas tramas de aventura e ficção, que se tornaram sucessos atemporais. Na época um jovem que acabara de se graduar em universidade em Belo Horizonte, Jorge não tinha planos de deixar sua cidade natal. Queria voltar a radicar-se em Pedro Leopoldo, perto de sua família, e realizar o sonho de casar-se com Marília de Dirceu Duarte, com quem vive até hoje.

Aos 81 anos, com muitos projetos em andamento, ele se considera empreendedor ousado, orgulhoso de feitos que modificaram a rotina do município com cerca de 60 mil habitantes, popularizando o acesso à arte cinematográfica. Para Edson Jorge, o cinema aponta caminhos inusitados e representa seara de grandes conquistas. O protagonismo do gestor cultural coloca a cidade na contramão da realidade do interior mineiro, onde ainda é restrita a oferta não apenas de salas de cinema, mas de boa parte da produção artística nacional.

O empreendedor cultural se prepara para reabrir o Cine Marajá ainda este ano, depois das reformas iniciadas no início desta semana. O espaço, que abrigou a sala de exibição no fim dos anos de 1950, funcionou naqueles moldes até 1988 e apresentou atrações como Marcelino pão e vinho, Quando setembro vier, Os 10 mandamentos, além de filmes estrelados por Grande Otelo, Oscarito e chanchadas. Ao longo dos anos, o cinema acompanhou o desenvolvimento e as crises da produção nacional, e foi testemunha de fenômenos como O ébrio, dirigido por Gilda de Abreu, com Vicente Celestino como protagonista.

“Teve sessão em que fui obrigado a colocar 1.150 pessoas, porque ninguém queria esperar. Ao final, precisei pintar tudo de novo, porque as paredes ficaram marcadas pelos pés dos que optaram por assistir ao filme encostados nas laterais”, recorda. Não fosse pela obstinação de Edson Jorge, o lugar teria sido alugado para receber um açougue. Pedro Barbosa Siqueira pensava em abrir loja de carnes em frente ao comércio administrado por Jorge, mas sucumbiu ao apelo convincente do futuro vizinho. “Disse a ele que já tinha muito açougue na cidade. Que a gente precisava era de um cinema moderno. O único que existia, o Cine Central, era uma bagunça. Como não tínhamos dinheiro, fomos a um banco e demonstramos ao gerente que valia a pena o investimento”, conta Jorge. Em 15 de setembro de 1955 começaram as obras e, seis meses depois, o Cine Marajá foi aberto, com casa cheia. “Foi um evento lindo, grande e importante para todo mundo”. O empresário se orgulha de ter saldado a dívida contraída para a empreitada em apenas sete anos.

INJUSTIÇA

No fim dos anos 1980, com a decadência do cinema norte-americano e os shoppings investindo nos multiplex, com várias salas de menor porte e programação variada, Edson Jorge se deu conta de que era necessário acompanhar as mudanças. “Quis ser pioneiro de novo. Fechei o cinema e construí um shopping, o primeiro de Pedro Leopoldo, onde reservei sala com 105 lugares para exibição dos filmes”. Jurassic park foi a aposta de estreia, em mais uma iniciativa de sucesso. Até que um dia um vendedor ambulante se fixou diante do shopping e passou a vender cópias ilegais dos filmes em cartaz. “Chamei a polícia e eles disseram que não podiam fazer nada. Fiquei tão aborrecido que fechei o cinema por causa da injustiça de trabalhar com honestidade, pagar impostos, investir e ter que lidar com um tipo de concorrência que é desleal”.

Há cerca de dois anos, Edson Jorge decidiu superar o período de frustração com novo desafio. Beneficiado por lei de incentivo à cultura, ele conseguiu parceiros para investimento de R$ 90 mil para a recuperação da sala e se prepara para oferecer filmes com exibição em som estéreo e acomodações de luxo. “A sala para 80 pessoas será toda carpetada, com ar-condicionado, luz de piso, poltrona confortável, de 54cm, e tudo mais que o público precisa para se sentir bem”, afirma. Apesar da resistência da esposa e dos oito filhos, que preferiam que Jorge ocupasse o tempo com atividade de menor responsabilidade, o empresário não quer saber de folga. Animado, ele argumenta: “Não quero saber de descansar. O cinema sempre foi a minha vida”, reconhece.

Sem estrutura
De acordo com o Anuário de Estatísticas Culturais – 2009, publicado pelo Ministério da Cultura, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são os estados com maior número de salas de cinema. Ainda assim, é perceptível a escassez de oferta para o grande público. O índice de concentração de equipamentos de cinema em Belo Horizonte é de 35% e o índice de habitantes por cinema na capital mineira é de apenas 0,35%. Além do alto custo dos ingressos, queixa recorrente dos frequentadores, no interior do estado a maioria dos municípios não conta com estrutura adequada para exibição.

Triste estatística
• Apenas 8,7% das cidades brasileiras têm salas de cinema, segundo o Ministério da Cultura
• Das 2.078 salas existentes no país, 1.244 estão na região Sudeste
• Minas tem 192, Rio de Janeiro 280 e São Paulo 722
• No estado de Minas Gerais, apenas 8,56% dos municípios têm salas de cinema